quarta-feira, 15 de maio de 2013

Urgentemente - Eugénio de Andrade

É urgente o Amor,
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.


É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.


Cai o silêncio nos ombros,
e a luz impura até doer.
É urgente o amor,
É urgente permanecer.



terça-feira, 14 de maio de 2013

Canção do dia de sempre - Mário Quintana

Tão bom viver dia a dia…
A vida assim, jamais cansa…

Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu…

E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência… esperança…

E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas…

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Se os tubarões fossem homens - Bertolt Brecht


Lancei um papagaio de papel...

Lancei um papagaio de papel,
e fiquei a vê-lo voar.
Lancei o meu nome ao vento,
e fiquei a ouvi-lo ecoar.

Lancei o meu rumo ao mar,
e vi-o perder-se no infinito até naufragar.
Sem direcção, sem sentido,
Bússula que perdeu o norte.

Não tenho para onde ir,
mas também não quero ficar.
Perdi a vontade de sorrir,
mas também não quero chorar.(VM)



Vaidosa - Cesário Verde

                                                Dizem que tu és pura como um lírio
E mais fria e insensível que o granito,
E que eu que passo aí por favorito
Vivo louco de dor e de martírio.
 
Contam que tens um modo altivo e sério,
Que és muito desdenhosa e presumida,
E que o maior prazer da tua vida,
Seria acompanhar-me ao cemitério.
 
Chamam-te a bela imperatriz das fátuas,
A déspota, a fatal, o figurino,
E afirmam que és um molde alabastrino,
E não tens coração como as estátuas.
 
E narram o cruel martirológio
Dos que são teus, ó corpo sem defeito,
E julgam que é monótono o teu peito
Como o bater cadente dum relógio.
 
Porém eu sei que tu, que como um ópio
Me matas, me desvairas e adormeces,
És tão loira e doirada como as messes,
E possuis muito amor... muito amor próprio.




domingo, 12 de maio de 2013

Canta Onde Nada Existe - Fernando Pessoa


Canta onde nada existe
O rouxinol para seu bem (?),
Ouço-o, cismo, fico triste
E a minha tristeza também (?)

Janela aberta, para onde
Campos de não haver são
O onde a dríade se esconde
Sem ser imaginação.

Quem me dera que a poesia
Fosse mais do que a escrever !
Canta agora a cotovia
Sem se lembrar de viver...