Lancei um papagaio de papel,
e fiquei a vê-lo voar.
Lancei o meu nome ao vento,
e fiquei a ouvi-lo ecoar.
Lancei o meu rumo ao mar,
e vi-o perder-se no infinito até naufragar.
Sem direcção, sem sentido,
Bússula que perdeu o norte.
Não tenho para onde ir,
mas também não quero ficar.
Perdi a vontade de sorrir,
mas também não quero chorar.(VM)
segunda-feira, 13 de maio de 2013
Vaidosa - Cesário Verde
Dizem que tu és pura como um lírio
E mais fria e insensível que o granito,
E que eu que passo aí por favorito
Vivo louco de dor e de martírio.
Contam que tens um modo altivo e sério,
Que és muito desdenhosa e presumida,
E que o maior prazer da tua vida,
Seria acompanhar-me ao cemitério.
Chamam-te a bela imperatriz das fátuas,
A déspota, a fatal, o figurino,
E afirmam que és um molde alabastrino,
E não tens coração como as estátuas.
E narram o cruel martirológio
Dos que são teus, ó corpo sem defeito,
E julgam que é monótono o teu peito
Como o bater cadente dum relógio.
Porém eu sei que tu, que como um ópio
Me matas, me desvairas e adormeces,
És tão loira e doirada como as messes,
E possuis muito amor... muito amor próprio.
domingo, 12 de maio de 2013
Canta Onde Nada Existe - Fernando Pessoa
| Canta onde nada existe O rouxinol para seu bem (?), Ouço-o, cismo, fico triste E a minha tristeza também (?) Janela aberta, para onde Campos de não haver são O onde a dríade se esconde Sem ser imaginação. Quem me dera que a poesia Fosse mais do que a escrever ! Canta agora a cotovia Sem se lembrar de viver... |
sábado, 11 de maio de 2013
Deve chamar-se tristeza - Fernando Pessoa
Deve chamar-se tristeza
Isto que não sei que seja Que me inquieta sem surpresa Saudade que não deseja.
Sim, tristeza - mas aquela
Que nasce de conhecer Que ao longe está uma estrela E ao perto está não a Ter.
Seja o que for, é o que tenho.
Tudo mais é tudo só. E eu deixo ir o pó que apanho De entre as mãos ricas de pó. |
Tudo que existe existe talvez porque outra coisa existe. Nada é, tudo coexiste
"(...)Floresce alto na solidão nocturna um candeeiro incógnito por detrás de uma
janela. Tudo mais na cidade que vejo está escuro, salvo onde reflexos frouxos da
luz das ruas sobem vagamente e fazem aqui e ali pairar um luar inverso, muito
pálido. Na negrura da noite, a própria casaria destaca pouco, entre si, as suas
diversas cores, ou tons de cores: só diferenças vagas, dir-se-ia abstractas,
irregularizam o conjunto atropelado.
Um fio invisível me liga ao dono anónimo do candeeiro. Não é a comum
circunstância de estarmos ambos acordados: não há nisso uma reciprocidade
possível, pois, estando eu à janela no escuro, ele nunca poderia ver-me. E outra
coisa, minha só, que se prende um pouco com a sensação de isolamento, que
participa da noite e do silêncio, que escolhe aquele candeeiro para ponto de
apoio porque é o único ponto de apoio que há. Parece que é por ele estar aceso
que a noite é tão escura. Parece que é por eu estar desperto, sonhando na treva,
que ele está alumiando.
Tudo que existe existe talvez porque outra coisa existe. Nada é, tudo
coexiste: talvez assim seja certo. Sinto que eu não existiria, nesta hora - que
não existiria, ao menos, do modo em que estou existindo, com esta consciência
presente de mim, que por ser consciência e presente é neste momento inteiramente
eu -, se aquele candeeiro não estivesse aceso além, algures, farol não indicando
nada num falso privilégio de altura. Sinto isto porque não sinto nada. Penso
isto porque isto é nada. Nada, nada, parte da noite e do silêncio e do que com
eles eu sou de nulo, de negativo, de intervalar, espaço entre mim e mim, coisa
esquecimento de qualquer deus...(...)" (Livro do desassossego)
Chuva de estrelas
A chuva cai, gota a gota,
como diamantes livres.
Dilúvio de safiras e esmeraldas,
Tempestade de pedras preciosas.
Tesouro de lágrimas,
choro de princesas,
perdidas em castelos de ouro,
deixadas em claustros de prata.
como diamantes livres.
Dilúvio de safiras e esmeraldas,
Tempestade de pedras preciosas.
Tesouro de lágrimas,
choro de princesas,
perdidas em castelos de ouro,
deixadas em claustros de prata.
sexta-feira, 10 de maio de 2013
Porque não agarramos as nuvens...
Se aquela nuvem ali no céu,
fosse feita de algodão,
então eu poderia pegar nela
e tocar-lhe com a minha mão.
Se aquela estrela ali no céu
fosse feita de ilusão,
então eu poderia pegar nela
e guarda-la no coração.
Porque não agarramos as nuvens,
porque não tocamos o céu...
fosse feita de algodão,
então eu poderia pegar nela
e tocar-lhe com a minha mão.
Se aquela estrela ali no céu
fosse feita de ilusão,
então eu poderia pegar nela
e guarda-la no coração.
Porque não agarramos as nuvens,
porque não tocamos o céu...
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