quarta-feira, 10 de julho de 2013

Destino - Miguel Torga

Acordo como os pássaros cativos,
Com a ária da vida nos ouvidos.
Acordo sem amarras nos sentidos,
Fiéis à sempiterna liberdade...
Nada pôde vencer a lealdade
Que juraram à deusa aventureira.
Nem as grades do sono, nem a severidade
Da noite carcereira.

Acordo e recomeço
O canto interrompido:
O desvairado canto
Da ira irrequieta...
- O canto que o poeta
Se obrigou a cantar
Antes de Ter nascido,
Antes de a sua angústia começar.


 

Desenha janelas na tua vida

Desenha janelas na tua vida,
cria pontos de contacto com o mundo.
Pinta o sol na tua sala,
ilumina o teu espaço .

Se não consegues ver a paisagem da tua janela pinta-a,
só tu podes fazer brilhar o sol.(VM)


domingo, 7 de julho de 2013

Ás vezes...

Ás vezes parece que o mundo parou,
parece que os dias já não têm vida.

Ás vezes parece que o mundo se transformou,
parece que a vida já não existe nos dias.

Será que o mundo mudou,
ou se mudaram as vidas?!

Será que o mundo se transformou,
ou se transformaram as razões que nos fazem viver?!(VM)


OU ISTO OU AQUILO - Cecília Meireles


Ou se tem chuva e não se tem sol,
Ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
Ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
Quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
Estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
Ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
E vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
Se saio correndo ou fico tranquilo.

Mas não consegui entender ainda
Qual é melhor: se é isto ou aquilo.
 
 

domingo, 30 de junho de 2013

Havera vida onde só a vida não basta?!

"Haverá luz no abismo profundo,
haverá esperança na imensidão da tragédia,
haverá luz na noite mais sombria,
haverá vida onde a vida só não basta?! (VM)


O tempo - Cecília Meireles

O tempo seca a beleza.
seca o amor, seca as palavras.
Deixa tudo solto, leve,
desunido para sempre
como as areias nas águas.

O tempo seca a saudade,
seca as lembranças e as lágrimas.
Deixa algum retrato, apenas,
vagando seco e vazio
como estas conchas das praias.

O tempo seca o desejo
e suas velhas batalhas.
Seca o frágil arabesco,
vestígio do musgo humano,
na densa turfa mortuária.

Esperarei pelo tempo
com suas conquistas áridas.
Esperarei que te seque,
não na terra, Amor-Perfeito,
num tempo depois das almas.
 
 

 
 
 
 
"... E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente.
Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros.
Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram.
Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre."


Miguel Sousa Tavares