sábado, 11 de maio de 2013

Deve chamar-se tristeza - Fernando Pessoa




Deve chamar-se tristeza
Isto que não sei que seja
Que me inquieta sem surpresa
Saudade que não deseja.
Sim, tristeza - mas aquela
Que nasce de conhecer
Que ao longe está uma estrela
E ao perto está não a Ter.
Seja o que for, é o que tenho.
Tudo mais é tudo só.
E eu deixo ir o pó que apanho
De entre as mãos ricas de pó.
 
 

 

Tudo que existe existe talvez porque outra coisa existe. Nada é, tudo coexiste

"(...)Floresce alto na solidão nocturna um candeeiro incógnito por detrás de uma janela. Tudo mais na cidade que vejo está escuro, salvo onde reflexos frouxos da luz das ruas sobem vagamente e fazem aqui e ali pairar um luar inverso, muito pálido. Na negrura da noite, a própria casaria destaca pouco, entre si, as suas diversas cores, ou tons de cores: só diferenças vagas, dir-se-ia abstractas, irregularizam o conjunto atropelado.
Um fio invisível me liga ao dono anónimo do candeeiro. Não é a comum circunstância de estarmos ambos acordados: não há nisso uma reciprocidade possível, pois, estando eu à janela no escuro, ele nunca poderia ver-me. E outra coisa, minha só, que se prende um pouco com a sensação de isolamento, que participa da noite e do silêncio, que escolhe aquele candeeiro para ponto de apoio porque é o único ponto de apoio que há. Parece que é por ele estar aceso que a noite é tão escura. Parece que é por eu estar desperto, sonhando na treva, que ele está alumiando.

Tudo que existe existe talvez porque outra coisa existe. Nada é, tudo coexiste: talvez assim seja certo. Sinto que eu não existiria, nesta hora - que não existiria, ao menos, do modo em que estou existindo, com esta consciência presente de mim, que por ser consciência e presente é neste momento inteiramente eu -, se aquele candeeiro não estivesse aceso além, algures, farol não indicando nada num falso privilégio de altura. Sinto isto porque não sinto nada. Penso isto porque isto é nada. Nada, nada, parte da noite e do silêncio e do que com eles eu sou de nulo, de negativo, de intervalar, espaço entre mim e mim, coisa esquecimento de qualquer deus...(...)" (Livro do desassossego)
 

Chuva de estrelas

A chuva cai, gota a gota,
como diamantes livres.
Dilúvio de safiras e esmeraldas,
Tempestade de pedras preciosas.

Tesouro de lágrimas,
choro de princesas,
perdidas em castelos de ouro,
deixadas em claustros de prata.



sexta-feira, 10 de maio de 2013

Porque não agarramos as nuvens...

Se aquela nuvem ali no céu,
fosse feita de algodão,
então eu poderia pegar nela
e tocar-lhe com a minha mão.

Se aquela estrela ali no céu
fosse feita de ilusão,
então eu poderia pegar nela
e guarda-la no coração.

Porque não agarramos as nuvens,
porque não tocamos o céu...

Liberdade - Fernando Pessoa

O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...


Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto é melhor, quando há bruma,

Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,

Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...



 



quinta-feira, 9 de maio de 2013

A tristeza espreita em todas as ruas onde eu moro...

A tristeza espreita em todas as ruas onde eu moro,
calma, silenciosa ela espera pelo momento certo.
Se eu a procuro ela disfarça,
se eu fujo ela me persegue.

Naquelas mesmas ruas mora também a alegria,
não à espreita nem escondida,
ela brilha e faz questão que todos a vejam,
mas só a sentem aqueles que ousam olhar o infinito.
A alegria não está nos passos que damos,
mas na forma como caminhamos.

O segredo não está em mudar de caminho e sim mudar o caminho.(VM)



quarta-feira, 8 de maio de 2013

A eternidade balança nas ondas do mar...

A eternidade balança nas ondas do mar,
navega lado a lado com a imensidão.
E é nas profundezas que surge a solidão,
que se esconde onde menos se espera encontrar.

No mar e na vida tudo se pode perder,
dia após dia, maré após maré.
Como uma garrafa que se atira,
com palavras que se quer esconder


No mar e na vida nada se pode prever.(VM)