terça-feira, 23 de abril de 2013

Estou aqui mas não me vejo,
sinto-me sem me sentir.
Deito-me sem sonhos,
levanto-me sem ilusões.
 
Espero-te sem te esperar,
quero-te sem te querer.
Abro os braços e vislumbro o teu abraço,
mas já não existe aconchego.
 
Pode-se rir sem expressão,
chorar sem sentimento,
mas amar só com coração. (VM)

Estou Cansado, é claro - Álvaro de Campos


Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...

E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente: eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto me dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.



segunda-feira, 22 de abril de 2013

Ariane - Miguel Torga


Florbela Espanca

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!



A vida é feita de marcas...

Olho para o céu e não consigo distinguir as estrelas,
olho para os dias e não consigo distinguir vida neles.
Olho para o rio e não consigo distinguir as gotas que o compõem,
olho para o meu coração e não consigo distinguir os sentimentos.

Olhar sem ver,
observar sem alcançar a beleza do que se vê.
Viver sem sentir,
caminhar pelos dias sem deixar a nossa marca.

A vida é feita de marcas,
rastos daquilo que existiu um dia...(VM)

domingo, 21 de abril de 2013

Vem Sentar-te Comigo, Lídia, à Beira do Rio - Ricardo Reis

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassosegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podiamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento —
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim — à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.

Ricardo Reis, in "Odes"
Heterónimo de Fernando Pessoa


 

Sequência

Dia após dia,
semana após semana,
alegria após alegria,
tristeza após tristeza.
Desilusão após desilusão,
surpresa após surpresa.

Vida após vida,
como as páginas de um livro.
Palavra após palavra,
linha após linha,
página após página.

Assim tudo segue o seu rumo,
sequência de momentos,
e momentos sem sequência...(VM)