sábado, 20 de abril de 2013

Alberto Caeiro - Não Sei Quantas Almas Tenho

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que sogue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: "Fui eu?"
Deus sabe, porque o escreveu.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

A imensidão

Tudo é imenso,
 imenso mar, imenso céu,
imenso deserto, imenso oásis.
A imensidão é imensa...

A grandeza que nos transcende é imensa.
É no avesso da vida que nos encontramos,
a outra margem, o lado de lá.
É sempre o outro lado que nos atrai,
o que não temos, o que não conseguimos ter.

Assim como a moeda tem dois lados,
a lua duas faces, o rio duas margens...(VM)


ANTÓNIO GEDEÃO

Pedra Filosofal
Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.



quinta-feira, 18 de abril de 2013

Deixo a minha mente vaguear sem destino,
sem sentido, sem fim, sem recomeço...
Como ondas livres e obstinadas,
ondas de liberdade, de leveza, de sentimento.

É fim de tarde, tudo é calmo e colorido,
depois da azafama, do rebuliço,
tudo entra nos eixos,
cai o pano e tudo ganha outro sentido.

Faz-se silêncio, apagam-se as luzes,
os actores saem de cena.
Mas a cena assim como a vida, não se apagam.
Amanhã tudo recomeça...(VM)


quarta-feira, 17 de abril de 2013

As mais belas bibliotecas universitárias


Mais um dia...
Apesar da incerteza do amanhã continuamos a deixar escapar o hoje. Focamos todas as nossas energias a planear o que vamos fazer a seguir, a pensar em como poderemos  ser felizes quando acontecer isto ou aquilo... Onde ir, o que comprar, o que dizer, o que sentir... E hoje??? o que será do amanhã se não vivermos hoje? Seremos felizes no futuro se olharmos para trás e não houver lembranças que nos façam sorrir?! Um dia alguém disse "o amanhã pode ser longe demais".(VM)

A espantosa realidade das coisas - Alberto Caeiro

A espantosa realidade das coisas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada coisa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.

Basta existir para se ser completo.

Tenho escrito bastantes poemas.
Hei de escrever muitos mais, naturalmente.

Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada cousa que há é uma maneira de dizer isto.

Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada.
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.

Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.
Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem esforço,
Nem ideia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos
Porque o digo como as minhas palavras o dizem.


Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer cousa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.