quarta-feira, 17 de abril de 2013

A espantosa realidade das coisas - Alberto Caeiro

A espantosa realidade das coisas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada coisa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.

Basta existir para se ser completo.

Tenho escrito bastantes poemas.
Hei de escrever muitos mais, naturalmente.

Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada cousa que há é uma maneira de dizer isto.

Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada.
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.

Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.
Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem esforço,
Nem ideia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos
Porque o digo como as minhas palavras o dizem.


Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer cousa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.

terça-feira, 16 de abril de 2013

E assim passa um e outro,
depois outro e ainda mais um.

Uns com ar simples e despreocupado,
outros sisudos e melancólicos.
 
Uns cheios de vida,
outros com a vida cheia.
 
Uns que vêem mais além,
outros que além nada vêem.
 
Uns com uma luz brilhante,
outros cujo brilho já se apagou.(VM)



David Mourão-Ferreira

Canção amarga
Que importa o gesto não ser bem
o gesto grácil que terias?
--- Importa amar, sem ver a quem...
Ser mau ou bom, conforme os dias.
Agora, tu só entrevista,
quantas imagens me trouxeste!
Mas é preciso que eu resista
e não acorde um sonho agreste.
Que passes tu! Por mim, bem sei
que hei-de aceitar o que vier,
pois tarde ou cedo deverei
de sonho e pasmo apodrecer.
Que importa o gesto não ser bem
o gesto grácil que terias?
--- Importa amar, sem ver a quem...
Ser infeliz, todos os dias!
 
 
 

domingo, 14 de abril de 2013

Sinto-me cansada, um cansaço que me corrói, que me consome.
Sinto que tudo à minha volta segue o seu rumo.
Todos, até a pequena criança, seguem o seu objectivo,
correm atrás daquilo que mais desejam e tudo parece tão fácil, tão determinado.
Mas para mim tudo é diferente,
tudo é lento, pesado, angustiante...
Vivo num mundo à parte,
como duas estradas paralelas que seguem juntas a imensidão da vida mas nunca se cruzam.
Assim somos o resto do mundo e eu...(VM)

Exemplo de luta pelos sonhos

Quando começa a anoitecer , o estacionamento do Aeroporto Internacional de G'Bessi começa a encher de estudantes, eles se agrupam ali todas as noites , por ser o Aeroporto, um dos únicos locais onde eles podem contar com uma luz artificial e com isso conseguir estudar.

Somente 5% da população de Guiné-Conacri, na África conta com Eletricidade, e mesmo esse pouco sofre com cortes de eletricidade freqüentes. Segundo dados das Nações Unidas em média um Guiniense consome 89 kilowatts por hora ao ano. Isto é o equivalente a ter um ar condicionado ligado durante 4 minutos por dia. O americano médio consome cerca de 158 vezes esta quantidade.

Os estudantes começam a chegar no final da tarde para conseguirem os melhores lugares para estudar, que são aqueles locais que ficam diretamente abaixo de um dos 12 postes de iluminação do estacionamento

Alguns destes estudantes caminham mais de uma hora para chegar a este local.
Os locais são definidos por idade. Os alunos dos sete aos nove anos de idade sentam-se em alguns pontos que separam o transito, enquanto que os adolescentes se sentam nos pilares de cimento que rodeiam o lugar à volta do aeroporto. As garotas têm de ser acompanhadas por um irmão mais velho ou algum homem do sexo masculino de confiança. Mesmo as crianças menores são autorizadas a estar na rua até altas horas da madrugada. Aqueles que moram mais longe procuram luz nas bombas de gasolina outros no exterior das casas de famílias abastadas. Estes alunos consideram-se, ainda assim, uns sortudos.
Ali Mara, dez anos, estudava o diagrama do corpo de um inseto e disse: "Os meus pais não se preocupam comigo porque sabem que estou aqui à procura do meu futuro."
 

 

O que é o sonho?

Ilusão que criamos, anseio de viver outras vidas que não a nossa...
Necessidade de nos mantermos numa realidade paralela, onde tudo é possível...
Dizem que o sonho comanda a vida, mas será que  vida suporta o sonho?
A beleza do sonho está na possibilidade de este se tornar real, ou na certeza de que não passa de uma ilusão?(VM)