sábado, 6 de abril de 2013

Lágrimas Ocultas (Florbela Espanca)

Se me ponho a cismar em outras eras
Em que rí e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi outras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...
E a minha triste boca dolorida
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!
E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...
E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!


 

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Sophia de Mello Breyner Andresen - Porque

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não.


Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.


Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.


Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.


Sophia de mello breyner andresen
mar novo 1958

Sentirmo-nos sós no meio da multidão é um lugar comum.
Percorrer a estrada da vida, viver vidas alheias passando ao lado da nossa própria vida.
Sensação de estar sem estar...
Como um balão que flutua livre, leve e solto, mas não tem para onde ir.
Viagem sem destino,
Labirinto interminável sem saída à vista...(VM)

terça-feira, 2 de abril de 2013